Rota do Cangaço tem refúgio do bando de Lampião e banheira de Maria Bonita

Em áridos cenários sertanejos uma figura ganhou fama e, apesar do currículo polêmico, Lampião transformou-se em um dos personagens nordestinos mais lembrados do Brasil.
É tanta a devoção ao “Rei do Cangaço” que o extremo noroeste de Sergipe guarda endereços que, mais do que cenários de temidos cangaceiros do início do século passado, viraram rotas turísticas.

Em Sergipe, a história se conta bem no quintal de casa, às margens do Velho Chico….
Canindé de São Francisco, cidade a 200km da capital Aracaju, é a anfitriã que recebe visitantes com um roteiro dedicado aos tempos do cangaço e a personagens como Maria Bonita, Corisco e Dadá, só para citar alguns dos nomes mais famosos dos que se juntaram.

Nessa região, que viu sua geografia ser alterada com o represamento do rio São Francisco para a construção da Usina Hidrelétrica de Xingó (no início dos anos 90), fica a Rota do Cangaço. O circuito de 4 horas inclui navegações entre paredões rochosos do Velho Chico, passagem por trilhas históricas e almoço regional, em restaurante ribeirinho.

O desembarque acontece no Cangaço Eco Parque, na Fazenda Angico, na vizinha Poço Redondo. Embora conte com atividades como slackline, parede de escalada e até passeios de jegue, a atração mais procurada é a Grota do Angico, onde Lampião e Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram surpreendidos por uma emboscada que custaria suas vidas.

No dia 28 de julho de 1938, o bando foi encontrado no local por 49 soldados da polícia alagoana, na época conhecida como “volante”, e suas cabeças foram degoladas por homens com sede de vingança, sob o comando do tenente João Bezerra da Silva.
É tarefa impossível não se lembrar da famosa imagem dos 11 crânios que na época ficaram em exposição na escadaria da prefeitura de Piranhas (AL), a 12 km dali.

Nos 90 minutos seguintes, a guia de cara fechada e figurino de Maria Bonita será a acompanhante do grupo que vai encarar os quase 2km de caminhada caatinga adentro, até a famosa grota.

Com 3,5km, entre ida e volta, a Trilha do Angico é feita sob sol forte e em terreno irregular e pedregoso. Pode ser difícil para os que não estão acostumados com caminhadas com alguns desníveis e áreas escorregadias, transpostas com o auxílio de cordas. Mas é o preço que se paga para colocar os pés em um dos capítulos mais conhecidos da história do Nordeste.

Banheira de Maria Bonita

Banheira de Maria Bonita Com passos lentos e um olhar atento que parece de quem nunca passou por ali, José Augusto de Andrade Lima é um médico veterinário aposentado que, desde 1978, administra a Fazenda Mundo Novo, uma área de 663 hectares com pinturas rupestres de nove mil anos em meio à vegetação da Caatinga.

A 30km de Canindé de São Francisco, o local servia de refúgio para Lampião e seus cangaceiros, cujos detalhes históricos podem ser conhecidos na Trilha do Cangaço. Foi-se Lampião, mas ficou aquele visual que beira o surrealismo cênico que nem Tim Burton poderia ter imaginado em fábulas de cinema….

Com 557m de extensão, essa trilha passa pela famosa Banheira de Maria Bonita, uma formação rochosa onde a mulher de Lampião costumava banhar-se (em dias de chuva, diga-se de passagem) e também pelo local onde o casal dormia, uma uma cama de pedra sob convenientes e frescas rochas locais. Dizem até que o bando passava o tempo jogando dominó em um conjunto de pedras em forma de mesa.

Quando questionado sobre as polêmicas que envolvem Lampião até hoje, “seu” Augusto dispara: “Não é questão de adoração, é uma passagem da história que a gente não pode ignorar. Quem foi mais cruel? Lampião ou a volante? A polícia saqueava, Lampião era ordeiro, reprimia injustiça e era implacável com denúncias”.

Nesse cenário de mata fechada e rochas esculpidas que formam labirintos naturais, que já serviu de cenário da minissérie “Amores Roubados” e da novela “Cordel Encantado”, da TV Globo, outro mundo se abre diante dos olhos.

A Trilha da Arqueologia é uma caminhada leve de 1.300m de extensão que passa por cinco sítios arqueológicos com pinturas e gravuras rupestres, em rochas areníticas de 400 milhões de anos – que um dia formavam o fundo do mar.

A visita se completa com as trilhas Cordilheira do Sol, um impressionante conjunto de pedras que parecem ter sido empilhadas manualmente, uma a uma; e a Alto do Céu, com vista para os limites entre Sergipe, Bahia, Pernambuco e Alagoas, recortada pelo rio São Francisco.